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Você não é pago para sentir!







Às vezes algo acontece e conecta percepções que já estavam latentes. Num dia de entrevistas, estava conversando com um profissional quando me dei conta de que na aceleração do tempo para realizar as conversas não havia perguntado sobre ele, achei que já tivesse passado o timing, mas minha intuição não deixou passar despercebido. Imediatamente perguntei: tudo bem com você? Uma emoção reprimida há meses, desde que perdera o pai e conectada à percepção de que sua idade já estava avançada para o mundo corporativo, surgiu após esse "tudo bem". Essas 2 situações provocavam um dor ignorada, e sem tempo para elaboração, culminou em lágrimas e constrangimento, pois estava no ambiente corporativo. Lembro-me que comentou: "são tantas coisas acontecendo, raramente me percebo ou alguém pergunta sobre mim. Desculpe".


Durante a conversa, investimos um tempo falando sobre o que realmente é a tal inteligência emocional, de que vai muito além desse autocontrole e sobre a importância dos sentimentos. Isso rendeu uma entrevista muito potente, vindo à tona muito mais que talentos e paixões desse profissional, e sim um núcleo humano e extremamente inspirador daquele líder que raramente estava disponível em seu dia a dia.

Histórias similares acontecem repetidas vezes no universo corporativo, onde o sentir é considerado item de segunda ordem, e onde muitas pessoas estão bloqueadas em sua produtividade, criatividade, liderança por desconsiderarem a força e o poder dos sentimentos. É algo fundamental, pois nossas decisões são afetadas pelo nosso sentir.

De modo geral, os perfis “mão na massa” e os mais racionais são as grandes estrelas do espaço corporativo, os que tem o sentir como centro são destinados às artes e a alguns trabalhos bem óbvios interpessoais. Assim, no mundo empresarial amontoam-se profissionais desconectados de seus sentimentos e que evitam considerar o próprio sentir, não ouvindo também os sentimentos de outros. E veja, o sentimento está muito conectado com a ação concreta.

 

 E será esse um dos fios condutores de tantos desafios nessa área emocional / sentimental, burnout dentro das empresas?

 

Você não está sendo pago para sentir!


Já ouviu isso? Imagino que nunca, e espero que ninguém lhe diga. Mas essa frase brotou recentemente em minha mente por similaridade a uma bem antiga “você não é pago para pensar”.

Parece absurdo, mas isso já foi slogan num passado não muito distante, eu mesma já a ouvi; e hoje somos conscientes de que precisamos imensamente de pessoas que pensem, avaliem, criem, reflitam.


E por que essa frase sobre o sentir me surgiu?


Porque sabemos da tríade “pensar - sentir - agir”, não com essa linearidade exposta. Mas nossas ações estão cheias de sentimentos, ainda que não tenhamos percepção clara deles. Não é porque não o vemos ou percebemos que eles não existem e estejam levando times e empresas a decisões equivocadas.


Gosto de estimular que as pessoas percebam o que estavam sentindo quando agiram de determinada forma.  Era medo? Ansiedade? Conexão ? Qual foi o pensamento que gerou esse sentimento? A maioria tem dificuldade em observar essas correlações, e os que conseguem, percebem mais o pensamento conectado diretamente ao agir. Mas, invariavelmente nossas ações estão atreladas aos nossos sentimentos.

As emoções são disparadores raramente controláveis, pois estão mais ligadas à área de sobrevivência do cérebro, entretanto o sentimento é o processamento melhor estruturado que foi fomentado pela ignição emocional, algo intrinsecamente humano, ao qual damos pouca valia.


E por que a maioria desconhece o próprio sentir? Por que não falamos do tema e não estimulamos a autorresponsabilidade em se conhecer e em compreender suas emoções e sentimentos?

Incentivamos cursos diversos para pensar melhor, análise crítica, mas pouco investimento se dá no desenvolvimento de profissionais que consideram e entendem sobre si. Aliás, note que até Daniel Goleman cunhou o nome “inteligência” emocional para algo que não é inteligente, mas como uma forma de atrair interesse, pois se falasse sobre emoções e sentimentos no trabalho, o tema não ganharia tanto interesse e seria direcionado à área médica.

Como seria se o que sentimos estivesse incluído no pacote de atividades diárias?

Como seria se pudéssemos dizer o que sentimos em relação a determinados planos, sobre nossa descrença e medo em relação ao novo desafio? O que mudaríamos se tomássemos consciência de que aquela decisão foi puro medo de perder poder?


Pessoas que desconhecessem seus sentimentos são mais facilmente manipuláveis, ainda que saibam estruturar um bom raciocínio lógico.


 Ah, mas ao falarmos do sentir estaríamos instituindo mais "mimimi" organizacional!! E será que isso está acontecendo justamente por sufocarmos algo que sairá invariavelmente em nossas ações? Será que os sentimentos não estão escapando nos happy-hours e cafés? E será que se o entendermos, esse poderia ser um caminho para adultos e relações mais saudáveis dentro das empresas?

Impossível ter assertividade sobre algo que é sentido como ameaçador!

Mas se compartilhássemos os sentimentos, possivelmente ele poderia ser revertido, transformado por meio de um processo analítico transpessoal, sistêmico. Ao não dizermos, ele será reprimido, gastando energia para conter esse desconforto.


Já tentou reter um balão sob a água de uma piscina? Dá muito trabalho! É isso que acontece nos mais variados ambientes, muitos balões querendo emergir e muita gente cansada pressionando-os sob a água. Eventualmente um escapa e quando vem à tona assusta a todos, e aí há um corre-corre para lidar, até a próxima erupção.


Por isso, sugiro “pagarmos” às pessoas não só pelo que fazem e pensam, mas também pelo que sentem. E então, encontraremos mais valor e criatividade em nossos dia-dia.

Estimular espaços seguros para conversas verdadeiras e apoiadoras, abrirmos espaço nas reuniões entendermos o pool de sentimentos.


Começamos a falar sobre inteligência artificial com tanto afinco, e isto deve ser fortemente compartilhado, mas se nos esquecermos que vivemos também a dimensão sentir e que ela está diretamente ligada às decisões e escolhas que cada pessoa faz nas diversas áreas de sua vida, estaremos limitando o potencial humano na resolução de desafios, especialmente os complexos.

 


 
 
 

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LiXiaumajornadahumana

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