NR-1: Uma Nova Obrigação Legal ou Um Antigo Chamado Humano?
- Ana Lícia Reis

- 27 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

Mentora de Carreira e Liderança | Fundadora da Plena Mente DHO
Nos últimos meses, temos acompanhado um debate importante no mundo do trabalho: a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que agora passa a exigir das empresas a avaliação e o gerenciamento dos riscos psicossociais dentro do seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Recentemente saiu a notícia de que a obrigatoriedade teria sido adiada para 2026, mas será que isso deve ser visto somente como uma questão legal?
Não é só sobre cumprir a norma.
É sobre reconhecer o ser humano.

Como mentora de líderes e consultora de empresas que querem fazer mais do que “entregar números”, vejo com clareza: essa mudança na legislação não é apenas uma exigência jurídica — é um chamado. Um chamado antigo, mas que agora tem ganhado visibilidade em pautas quentes diante de tantos dados alarmantes.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde – report 2024), 12 bilhões de dias de trabalho são dados como perdidos por ano devido à depressão e ansiedade. O Ministério da Previdência Social, em dados de 2024, mostrou que no último ano houve um aumento de 68% de licenças médicas concedidas devido aos transtornos mentais, uma situação nunca registrada antes.
Fontes: Crise de saúde mental – G1 e OMS – Mental health at work
Olhar apenas para a NR-1 é fazer mais do mesmo.
Gerenciar tecnicamente o humano não é suficiente. A NR-1 pode ser uma ferramenta importante, mas não deve ser tratada como checklist.

Ela é — ou deveria ser — um suporte para uma mudança real: um olhar verdadeiramente humano sobre a gestão.
Claro que os números são importantes. Mas o grande objetivo é reconhecer que estamos nos desgastando, operando em crédito emocional, e que esse crédito já passou dos limites da nossa saúde mental.
Não é sobre gerenciar tecnicamente o humano, mas sim ter uma visão humana da gestão.
Quantas vezes frases como essas foram exaltadas como força?
“Não te pago pra sentir, te pago pra produzir.”
“Os problemas pessoais ficam do lado de fora.”
“Aqui é pressão mesmo. Quem não aguenta, pede pra sair.”
“Sem mimimi e sem chororô.”
“Vamos resolver isso agora.”
Frases assim, que por muito tempo foram usadas como símbolo de resiliência, hoje revelam o quanto naturalizamos a pressão no trabalho.
Mas quem nunca sentiu enquanto produzia?
Quem nunca levou um conflito interno para a mesa de reunião?
Ou precisou silenciar sua ansiedade para entregar um relatório?
Ou ainda, teve que sorrir no Zoom enquanto, por dentro, implodia?
Somos seres integrais.

Não deixamos nossa subjetividade no armário antes de bater o ponto.
Não existe um botão que desliga as emoções entre 8h e 18h.
Por isso, sempre defendi — muito antes de ser norma — que gerir pessoas é, acima de tudo, reconhecer a humanidade presente em cada crachá.
O que muda quando olhamos para o sentir nas organizações?
A principal mudança que a atualização da NR-1 traz para as empresas é esse olhar mais cuidado com o Ser, o que significa, agora por lei, mapear, avaliar e gerir fatores inteiramente ligados a:
• Excesso de pressão e metas inalcançáveis
• Assédio moral
• Falta de reconhecimento
• Clima organizacional depreciativo
• Carga emocional excessiva
• Desalinhamento entre valores pessoais e cultura organizacional
Esses riscos, que antes eram vistos como segundo plano ou algo mais invisível, passam agora a ser tratados com o mesmo nível de seriedade que os riscos físicos e químicos.
Na prática, a empresa deve desenvolver ferramentas e indicadores para mapear a saúde mental de seus colaboradores e adotar medidas reais de prevenção e intervenção. O desafio, no entanto, não é técnico. É cultural.
Não é sobre mais uma planilha. É sobre uma mudança de consciência.
Empresas sustentáveis — no sentido mais pleno da palavra — já entenderam que não há performance que se sustente no tempo sem bem-estar. Mais que isso: sem Bem-Ser.
Liderar com consciência: o papel dos gestores no novo cenário

A gestão do futuro — que, na verdade, já é presente — exige líderes regenerativos.
Aqueles que têm repertório emocional, escuta ativa, clareza de propósito.
Líderes que pensam em construir pontes entre pessoas, resultados e a sociedade.
Que inspiram não pelo controle, mas pela conexão.
Que compreendem que sua principal função não é “extrair resultados”, mas criar as condições para que as pessoas floresçam e, assim, entreguem seus melhores resultados.
Essa visão — que integra pensamento sistêmico, psicologia, gestão e cultura organizacional — vem sendo o coração do trabalho que desenvolvemos na Plena Mente DHO: ajudar empresas a entender que cuidar da saúde mental é cuidar da inteligência organizacional.
A NR-1 só reforça isso. Agora, com carimbo legal.
A lei como reforço, não como ponto de partida.
O adiamento da obrigatoriedade nos dá tempo. Mas não deveria ser usado como justificativa para adiar a mudança. Porque, enquanto isso, as pessoas continuam adoecendo.
E uma empresa que adoece sua gente, adoece seus resultados.
Não adianta investir em tecnologia, estratégia e inovação, se o ambiente for tóxico e excludente.
Não há ROI que compense o burnout coletivo.
Conclusão? O caminho é a integração

A NR-1, agora com sua nova atualização, é mais que um marco jurídico.
É um convite irrecusável.
Um convite para empresas que querem liderar com consciência.
Para gestores que querem ser agentes de transformação.
Para organizações que compreendem que resultados sustentáveis só existem quando se constrói um ambiente seguro, íntegro e humanizado.
E, acima de tudo, é um convite para voltarmos à essência.
Porque no fim, o que sustenta qualquer estrutura são as pessoas.
E pessoas não se gerenciam — se desenvolvem.
Se sua empresa deseja integrar a visão do Empreendedorismo Essencial com práticas que cuidam verdadeiramente das pessoas e do negócio, estamos aqui para caminhar com você.






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