A era do endividamento invisível
- Ana Lícia Reis

- 27 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Estamos pagando o mínimo em presença, escuta e vínculo — e acumulando uma dívida emocional que adoece pessoas, empresas e relações sociais.

Estamos devendo.
Não apenas no cartão de crédito, na fatura do banco ou nas contas públicas.
Estamos devendo saúde emocional, escuta verdadeira, tempo de qualidade, vínculos com sentido.
E a maioria de nós continua operando como se isso não tivesse custo.
O nome pode parecer estranho à primeira vista, mas é preciso nomear o que ainda não sabemos medir:
Estamos vivendo sob o efeito de um cartão de crédito psico-ecológico-social — um sistema invisível em que gastamos mais do que temos em energia relacional, emocional e simbólica.
É como se a sociedade, as empresas e as pessoas estivessem pagando o mínimo — em atenção, em afeto, em verdade — enquanto acumulam silenciosamente um saldo negativo na vida real.
A fatura que não chega pelo e-mail
Essa dívida não é registrada em cartório.
Ela se acumula no corpo, nas relações, no silêncio de quem não foi ouvido.
No burnout que parece preguiça.
Na criança que pede atenção e recebe uma tela.
Na funcionária que volta da licença médica sem acolhimento.
Nos pais que estão em casa, mas pouco presentes.
Na médica que trabalha 12 horas, mas não é cuidada.
É uma dívida silenciosa — mas com juros altíssimos.
E quanto mais ignoramos essa fatura invisível, mais comprometemos nosso saldo coletivo.
No trabalho, um sistema esgotado
Dentro das empresas, isso se expressa num modelo que já não sustenta vínculos.
As pessoas adoecem tentando “dar conta” ou por não verem sentido no que fazem.
A saúde mental virou pauta — mas ainda não virou prática.

Segundo dados do INSS, os afastamentos por transtornos emocionais cresceram 29% de 2019 a 2023.
Estudos da Gallup mostram que só 23% das pessoas estão engajadas no trabalho.
E, ao mesmo tempo, há uma epidemia silenciosa de presenteísmo: gente que aparece, mas já não está.
Estamos exaustos, mas seguimos funcionando.
Como quem paga o mínimo da fatura e acredita estar tudo sob controle.
O que sustenta uma sociedade é a vitalidade, antes da produtividade
Chamo de cartão de investimento psico-ecológico-social todo aporte real e simbólico que fortalece a vida comum:
Uma escuta real
Uma pausa com presença
Uma conversa honesta entre gestor e equipe
Um limite saudável entre trabalho e descanso
Uma política pública que olha para o ser humano inteiro
Um vínculo verdadeiro com a natureza
Não é só simbólico. É estratégico.
Cuidar de pessoas não é custo. É continuidade.
E se medíssemos o invisível?
Nas experiências que conduzo com lideranças e grupos, criei um modelo simples:
Dois cartões — um de crédito e outro de investimento.
Num, registramos o que adoece.
No outro, o que regenera.

A soma das microações mostra o saldo emocional da cultura — seja de um time, uma empresa, uma família ou uma cidade.
É um sistema simbólico, mas poderoso. Como um extrato silencioso da qualidade das relações.
Se isso parece subjetivo, atenção: o que não é dito, é sentido.
E o que não se mede, muitas vezes se repete — até quebrar.
O que precisamos regenerar?
A forma como nos relacionamos com o tempo, cronológico e de fluidez
A maneira como nos tratamos, a escuta, o silêncio, os bloqueios e os desaparecimentos
A relação entre produtividade e presença, o sentido no que produzimos
O valor das pausas, de um abraço, do ritmo de cada um, a coragem de interromper padrões que adoecem
O cuidado com o ambiente físico, a natureza, a água, o ar
Mais do que falar de ESG, propósito ou performance, é preciso perguntar:
Estamos deixando um rastro de saúde ou de exaustão?
O futuro não vai esperar
Toda sociedade que esgota sua base relacional entra em colapso.
E o colapso não é sempre explosivo.
Às vezes, é sutil. É o colapso da confiança, do vínculo, dos princípios.
É gente se desconectando de si e dos outros — enquanto bate ponto no cartão e nos jogos de azar.

O futuro do trabalho, das relações e da vida em comum não será saudável se o humano continuar se tratando — e sendo tratado — como um recurso a ser otimizado, e não como um ser a ser integrado.
Enquanto insistirmos em pagar o mínimo, a conta seguirá crescendo.
E ela sempre chega — como já mostram os números da saúde mental.
Resta saber se teremos saldo suficiente para atravessar o que vem.
Sobre a autora:
Ana Lícia Reis é terapeuta, mentora de líderes e fundadora da Plena Mente DHO. Atua há mais de 25 anos no desenvolvimento humano e organizacional, com foco em liderança regenerativa, cultura viva e autoconhecimento aplicado ao mundo do trabalho. É autora do modelo 5.4.3.PRO de liderança plena e coautora de livros sobre gestão consciente e desenvolvimento de pessoas.






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