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Fragmentos…
Ana Reis
Tem história que a gente não quer contar, mas precisa. Ela brota na ideia e o único jeito de arrancar da cabeça é tirando-a em folhas escritas.
Um dia, ele foi patrão, dono de terra e animais. Mas agora é só um corpo na rede, dedilhando uma moda na viola, tentando espantar as memórias. Que memórias…? Sua vida fora feita de sol e perda.
Era um tanto de sol, e perda. Um pouco mais de sol … e um tanto de perda. Sobrou pouco, um deserto, uma secura na alma e no corpo. Dava pra se ver… Perdeu muita gente, gente amada. E se foram também os animais, os de serviço, os de estima e até os de agouro. Perdeu junto o desejo de perdão e de cavar.
Onde morresse, ficaria. “Aqui, nem semente quero ser.” Agora mesmo, enquanto lhe conto sua história, ele parou com a viola, e começou a rolar entre os dedos, como era seu costume, um fragmento de osso, guardado por amor.
Era de Baleia, sua companheira de sonhos e pasto, quase sempre sem verde, e ela sem viço. Matou-a, por amar demais. Estava seco da amargura da luta em vão. Dos dias corridos marcados por fatos. Somente fatos.
Assim que era. Bem raro… mas tinha vez, que ainda percebia um pouco de umidade. Ela ia do coração, pros olhos. Era quando, mesmo sem querer, as águas escuras e as barrentas se encontravam, bem ali dentro, formando um rio largo e profundo, que em sonho queria mergulhar e se divertir, mas vinha arrastando tudo.
Era rio, era profundo, e vinha cheio de saudade.
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